Os Rios por onde andei

Foram seis meses de muito trabalho e momentos de lazer. Guarda-se as lembranças e aguarda-se novas andanças. Um salve aos amigos que fiz e aos lugares que conheci.

Não citarei nomes pois cada um, que está em alguma foto, sabe da importância que teve e só tenho que agradecer por cada dia. E na linha da poesia de boteco, segue meu singelo relato

Conheci o Rio da zona sul

Do trabalho e do metrô lotado
Da aceleração e da ambição

Do negócio e do ócio
Do nordestino e do severino

Do corpo sarado e do idoso isolado
Da novela e da favela

Da igreja e da cerveja
Da comunidade e da humildade

Da perua e do menino de rua
Do cartão postal e do valor surreal

Do carnaval, do correto e do imoral
Da Lapa da badalação e Copacabana da prostituição

Da copa e da coca
Do pedal, da areia e do sal

Da Barra, da Reserva, da Prainha e Guaratiba
Do pão e do açúcar

Do redentor e do amor
Da qualidade de vida, do caminhar nas trilhas

Conheci o Rio da zona norte

A do reza forte
Do trem e do “ô nem”

Do samba e do funk de gente bamba
Do complexo do alemão, meu irmão

Das tradições nordestinas, vulgarmente chamada de “paraíbas”
Da Universidade Rural, lugar como esse não tem igual

Tive a oportunidade de mostrar os rios paraenses para quem veio do Rio. Agora entendo um pouco porque o Rio é o retrato do Brasil. Se Deus é brasileiro eu não sei, só sei que ele trabalhou legal por lá.

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Traços e Letras – Pedalo

Pedalo

Pra ir ao trabalho
Pra fugir da rotina
Pra ver o trânsito parado
Pra ver a menina bonita

Pro sol queimar a pele
Pra sentir a brisa do mar
Pra me sentir mais leve
Pro calor, o vento aliviar

Volto à luz da lua
Contemplando a paisagem
Vejo o vazio da rua
É mais um dia, só de passagem

A série “Traços e Letras” nasceu da vontade dos fulanos abaixo, que largaram quase tudo para acelerar suas vidas em outra cidade. E em suas caminhadas e pedaladas pela cidade maravilhosa, tiveram a ideia de registrar o cotidiano com seus traços e letras. Esperamos que gostem.

João Marcelo (Imagem) e Luiz Sanches (Letras)
João Marcelo (Traços) e Luiz Sanches (Letras)

Toda família

Toda família que tem café, almoço e janta, às vezes reclama. Mas tem muita família que deita de bucho vazio em sua cama.

Há famílias que tem pai, mãe e filhos vivendo bem. Mas em algumas famílias, nem vovô ou vovó ela tem.

Toda família tem briga, inveja, ciúme e intriga. Mas tem muita gente no mundo que nem tem família.

Algumas famílias têm filho que não tem pai e gente que ficou pra titio ou titia. Não existe família perfeita e, se fosse fácil, qualquer um a escolhia.

Toda família tem um menino que namora uma menina. Mas hoje em dia, também tem famílias com meninos que namoram meninos e meninas que namoram meninas.

Tem gente que tem vergonha de sua família. Dá pena ver uma pessoa sozinha em sua própria ilha.

Em algumas famílias tem gente que bebe, que fuma e até cheira. É triste ver uma família refém de uma grande besteira.

Existem famílias com gente que tá longe e tá perto ao mesmo tempo. Mas em outras, tem gente que tá perto e bem longe, isso que não entendo.

Toda família precisa de carinho, de beijo e de abraço. A família que não pratica isso, está fadada ao fracasso.

Toda família tem uma casa, algumas completas, algumas vazias. Mas nunca se esqueça que a casa de cada pessoa é a sua família.

Arrasta

Arrasta-me pelas ruas escuras
Arrasta a paixão pra dentro de mim
Arrasta-me por suas curvas nuas
Arrasta a razão pra longe daqui

Arrasta tuas mãos sobre as minhas
Arrasta teus lábios sobre os meus
Arrasta teu corpo negro de jeito menina
Arrasta-me, já não sei mais quem sou eu

Arrasta-me pelos rios da loucura
Arrasta-me pelas ondas do prazer
Arrasta-me com toda sua doçura
Arrasta meu céu, meu chão e meu querer

Arrasta-me, estou de ti embriagado
Arrasta-me, pois não quero partir
Arrasta-me, como é bom ser amado
Arrasta-me, adoro te ver sorrir

Escritores de código

O contato entre dedos e teclas faz parte de um processo de transferência de conhecimento, entre homem e máquina. A relação simbiótica começa com um questionamento, dando início a formulações de algoritmos que são rascunhados em nossa mente e que, quando consideradas aceitáveis, são traduzidas em um dialeto que só a máquina entende. Para os leigos, o resultado desse processo é chamado de software. Nós chamamos de arte.

No mundo onde tantas línguas criam divisão, tentamos dominar as linguagens da computação. Sabemos que é em vão, pois a inovação sempre está um passo a frente da tradição.

Conhecemos as ciências exatas e esquecemos que somos humanos. Nos envolvemos com tanta lógica e matemática que, às vezes, esquecemos de quem amamos.

Em nosso dia-a-dia lidamos com tanta coisa de forma burocrática. Mas se nos dessem ouvidos, diríamos: preferimos a pragmática.

Estudar sem parar é nossa sina, tentamos explicar, mas ninguém entende. É preciso dedicação de quem ensina e muito mais de quem aprende.

Nosso cérebro é enxurrado de tanta terminologia. São padrões, especificações, tecnologias e metodologias. Pena esquecermos da sociologia e da filosofia.

Codificamos o conhecimento humano transformando-o em regras de negócio. E para nunca deixarmos de ser criativos devemos praticar o ócio.

Trafegamos entre virtual e real, transformando o abstrato em concreto. Nunca devemos esquecer da ética e da moral, discernindo o errado e o certo.

Em todas as profissões devemos tirar algumas lições. A seguir citamos duas razões e a partir de cada uma extraímos suas emoções. Para programar você tem que amar. Para desenvolver você deve se envolver.

Nos chamam de programador, desenvolvedor, engenheiro e até de arquiteto. São tantas definições para uma profissão mal compreendida. Queremos apenas o devido mérito.

Ainda convivemos com funções e procedimentos, intermináveis diagramas e longos planejamentos. Pelo menos já temos classes e objetos, realmente o que importa são os atributos e os métodos.

Nos dê dados e lhe damos informação, nos tragam problemas e lhe devolvemos solução. Só não devemos nos vangloriar, pois somos apenas mais um na multidão.

Não temos a ilusão de se comparar com o Pai da criação. Pois sabemos que somos um instrumento que trabalha com dedicação e paixão. Assim, como um simples artesão.