Círio 2010 fotografado em palavras

Acorda pequeno! Tu não vais ver a passagem da imagem da santa? Vou sim! Rapidola tomo um banho, escovo os dentes, me arrumo e tomo um café com pão reforçado para segurar até a hora do lanche. De ônibus não dá pra ir, o jeito é pegar o transporte alternativo. O percurso é do Caripunas até a Tamandaré com a Padre Eutíqueo, e já tem gente pra caramba lá. Até alguns anos nosso ponto era nas barracas do ver-o-peso, mas agora tivemos que mudar para a Praça da República em frente à loja Americanas. Até que ficou melhor, lá no verópa cortaram muito as mangueiras que agora não dão muita sombra. Aqui na na praça, tem muito mais mangueiras que ajudam a diminuir o calor.

Desde o ano passado que a berlinda passa que nem uma bala pra chegar cedo no CAN e o pessoal poder ir almoçar cedo. Afinal de contas quem dispensa aquela maniçoba com arroz branco, farinha de mandioca daquelas “bagudas” hein? Pato no tucupi, nem fala mano, tentação.

Os anjinhos parecem mesmo voar, apoiados nos ombros de seus pais. A maioria nem sabe o propósito de suas vestimentas. Mas estão lá, apreciando a procissão de um ângulo bem favorecido e confortável. Ei! Olha lá aquele barco de miriti apoiado na cabeça do promesseiro, o vejo navegando em um grande rio de gente, em minha mente até reproduzo o barulho do “pôpôpô” que os barcos de verdade fazem. Que saudade de viajar, nas férias escolares, de barco pelo rio Tocantins. Agora que tem estrada e o “progresso” chegou o pessoal só viaja de “busão”. Lá vão vários barquinhos se perdendo no imenso rio de gente.

A singela casinha feita de madeira, isopor, miriti ou papel que o romeiro carrega na cabeça se contrapõe com a extrema força e sacrifício com que ela carrega a representação de seu sonho realizado. Assim como vejo outras pessoas carregando, tijolos, pneus, carteiras escolas com nomes de universidades, livros e apostilas. O pequeno se torna grande quando é realizado. A fé não se explica.

Lá vem a corda! Difícil focar apenas em uma pessoa, diante de tanta gente que passa com a expressão exausta. Se apoiam uns aos outros em um momento tão difícil e de pura dor e sofrimento. Lágrimas se misturam com o suor do rosto. Voam saquinhos de água para ajudar a se refrescarem do calor intenso. A mão que espoca o saco d’água faz jorrá-la parecendo com um chafariz, que além do líquido que purifica e sacia, leva também esperança e força para a caminhada que parece curta, mas para cada um que compõe a corda, é árdua e longa. Reflito que o simbolismo que a corda nos transmite pudesse ser seguido todos os dias do ano e não apenas em um.

Lá vem a berlinda, mais bonita a cada ano. Em seu interior, a representação de uma mãe. Uma mãe muito especial. A mãe que acolheu uma pessoa tão simples, tão humilde e tão forte que nos deu sua vida. Mãos se elevam em direção a ela e várias preces são realizadas nesse instante. O meu deste ano é em favor de um amigo que está precisando de muita saúde. Parece eterno os segundos em que fica parada em nossa frente. Realmente é bela, mas não é só a beleza que me encanta e sim a história que aquela imagem representa.

Égua! Tá chovendo? Tá sim mano, mas não é a chuva da tarde e nem vem do céu. Vem lá do Edifício Manoel Pinto e é chuva de papel. Lindo de se ver e ainda mais com balões amarelos subindo e fogos explodindo em louvor à santa.

Eu, minha mãe, avó, tias, primos, sobrinhos e amigos se emocionam com aquela passagem. É o natal dos paraenses. Dizem que é a mistura do sagrado e profano. Eu apenas digo que é o Círio de Nazaré.

Participei no domingo anterior de um workshop de fotografia do Círio. A mensagem que guardei do professor foi que é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e você não deve se prender somente em um tema para fotografar. Você também tem que sentir. E apesar da falta de recursos como a ausência de uma câmera, não exclui você da possibilidade de fotografar em palavras uma das maiores representações de fé do povo paraense.

Por Luiz Sanches.

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