Arquivo da categoria ‘crônicas’
Software na Planta
Gustavo se encontra rodeado por advogados, lê atentamente os itens que regem o contrato de prestação de serviços, em uma empresa de renome no mercado. Um desses itens menciona que seu produto será entregue dentro de alguns meses, assim como especificado nos anexos.
Eduardo e Marta estão ansiosos para receber a chave do apartamento que é concretização do sonho de qualquer ser humano: a casa própria. Planejam ter dois filhos, Marta já está cansada de ser chamada de titia.
José é sindico de um prédio localizado em uma grande capital. Ele está preocupado com as reformas que uns moradores estão realizando em seus apartamentos. Uns querem uma sala maior, outros não gostaram do modelo da cozinha.
Marcela já está cansada de levar trabalho pra casa nos finais de semana. Também está cansada de suas frequentes brigas com seu marido, ele também quer um pouco do tempo dela. Marcela é roubada até em seu sono, pois dorme tarde e acorda cedo. O projeto em que ela está alocada pode lhe dar uma boa promoção.
Gustavo, que esperava receber um sistema de computador igual ao que estava no contrato, fica surpreso quando vê a demonstração do produto em seu laptop. Ele questiona com o analista de sistemas que algumas funções que pediu não vieram como ele queria e que alguns relatórios estão faltando. O analista explica que isso poderá ser resolvido criando um aditivo, pois o período de planejamento e execução do contrato já expirou.
Eduardo e Marta já não aguentam mais ouvir as desculpas da construtora. O prédio que era tão bonito na planta está atrasado seis meses na entrega da obra. As prestações do apartamento estão em dia, mas Marta já está pensando em vender o carro para ajudar no aluguel do atual apartamento onde moram.
José perdeu vizinhos, amigos e um filho de 15 anos que estava no prédio na hora em que aconteceu a tragédia. Ainda não encontraram explicação para o desabamento do prédio, o que era lar virou entulho, o que era luxo virou lixo, o que era um lugar virou vazio.
Marcela, atualmente encontra-se bem posicionada no mercado de trabalho. Depois que obteve sua tão suada certificação em análise de processos conseguiu ser incorporada na equipe de qualidade total da empresa multinacional em que trabalha. Ficou apavorada quando viu a notícia no telejornal, falando sobre o desabamento de um prédio. Seu final de semana será novamente coberto de hora-extra, pois o projeto em que foi alocada já está com prazo de entrega expirando.
Bom, tentei mesclar o contexto em que estamos vivendo na engenharia cívil e desenvolvimento de software. Gostando ou não, deixe seu comentário.
Devia ter
Peguei um trecho de Epitáfio, dos Titãs, como título do post para falar um pouco sobre o que converso com alguns amigos Não acredito que exista 100% de ganho, em uma escolha sempre há uma perda. Para viver sua “independência”, perde-se a presença de quem você mais gosta: família, amigos e amores. Na saída de um emprego você perde a “estabilidade” mas se aprender a conviver com a incerteza se ganha confiança.
Já me disseram que tenho um problema sério, o de não me planejar para o futuro. Tento explicar que não me planejo em longo prazo para não me frustrar depois. Assim como o Zeca deixo a vida me levar. Só nesse embalo, já fiz tantas coisas e conheci tanta gente bacana que nunca imaginei esbarrar na vida. Sabe a tal da empatia, que faz você gostar de graça da pessoa sem ao menos nunca ter visto. E que a admiração cresce a cada dia, ao acompanhar o trabalho dela e ver que o esforço dedicado por ela está valendo a pena.
Você já parou para pensar o quanto é breve nossa estadia por aqui. E que você deve viver a sua vida plenamente sem se bitolar por alguns conceitos já fadados como emprego perfeito, relacionamento estável ou um bom plano de aposentadoria.
Alguns amigos falam que gostariam de estar fazendo o mesmo que eu em deixar minha família, emprego e viver um pouco a incerteza, viajando pra lá e pra cá. Mas não percebem que basta rever algumas coisas como consumo desenfreado e a cultura do status social. Isso e tantas bobagens que só fazem nos afundar cada vez mais e nos distanciam das coisas simples da vida, como conhecer pessoas e ter relacionamentos verdadeiros com elas.
Costumo dizer que sou um acidente de percurso. Nasci em Camaragibe, região metropolitana de Recife – Pernambuco, cresci em Belém do Pará. Se não tivesse passado em frente a um curso de informática há uns 15 anos atrás, já deveria estar formado em Administração de Empresas, pois fiz Ciências Humanas no ensino fundamental e era esse o caminho que certamente escolheria. O acaso me protegeu, enquanto eu andava distraído. Por isso falo que entrei de gaiato na área de TI. Essa área que me envolvi por fascínio, já me deu tantas oportunidades que todo dia me sinto realizado. Só de pensar que você pode tomar conta do seu destino, dá uma sensação de liberdade duca!
Em Dezembro, fui passar fim de ano com a família. A felicidade não foi completa pois perdi um grande amigo de longa data. Em Janeiro conseguimos reunir alguns presentes lá no complexo Feliz Lusitânia, em Belém, para lembrar do saudoso Manoel Dória. Naquele dia não houve tristeza. Tinha tanta lembrança bacana do tempo que trabalhamos juntos que a tarde foi só de boas recordações. O pôr-do-sol foi especial. Dias atrás, quando visitamos a família dele, foi tão bacana o que nos falaram. Que sentiam o Manoel vivo com nossa presença. Pena não poder revelar da mente tantas fotos e vídeos de várias churrascadas e passeios de bike. Naquela hora muita tristeza, agora apenas boas recordações.
Só pra fechar. Não se mova por dinheiro, por status ou pelo que os outros ditam. Faça valer a chance que foi dada a você. Substitua o “devia ter” por planejamento e execução. Tenha uma visão ampla das coisas, mas viva a vida em iterações curtas e consistentes.
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol de pôr…
A cada segundo
Certo dia troquei algumas mensagens com alguns amigos. Falávamos sobre dons, produção de textos, poesias e de repente, entre elogios e sarros, alguém falou que um dia iria escrever um livro. Mas somente quando tivesse tempo e dinheiro. Refleti um pouco sobre o assunto e corri para o bom e velho bloco de notas. Segue abaixo, o assunto escrito, seria melhor, se pudesse ser dito.
Você já parou para pensar que a cada segundo de nossa vida, estamos escrevendo o nosso livro? Tenho um vizinho, o Bastião, que em sua simplicidade e sabedoria fala que ao olharmos um relógio de parede, aqueles analógicos, devemos prestar atenção para aquele ponteiro que se move mais rápido e quase que imperceptivelmente rouba preciosos segundos de nossa vida. Damos às horas tanta importância, mas são os segundos que correm no tempo em eterna constância.
Se você ainda não plantou uma árvore, não teve um filho ou não escreveu um livro, relaxe. Se puder passar o pouco e precioso tempo, que o trabalho também nos rouba, ao lado de quem você gosta e contribuir para um ambiente saudável ao seu redor, Deus lhe dará a real recompensa, o amor verdadeiro. O amor que perdoa, que compartilha, que chora, que sente, que ri e que entende.
Ainda digo mais, você já está escrevendo a cada segundo, minuto e hora um rascunho. A cada dia um capítulo. A cada mês um episódio. A cada ano, uma temporada. Do que? Do livro mais importante de um ser humano. Escrito no tempo. Toda sua vivência. Gravado na alma. O livro da existência.
Quando não é sim
Quantos “não” você já levou na vida? Não precisa contar, mas acredito que foi muito mais que a quantidade de “sim”. E como é chato receber um “não” como resposta, dependendo do contexto e da pessoa, seu mundo pode acabar. Acredite em uma coisa, quanto mais “não” levar, será melhor para você, desde um fora de uma pessoa ou uma recusa de emprego, repito, certos “não” são benéficos. Aquela velha e sábia frase de que o “não” está garantido e temos que ir em busca do “sim” é a pura verdade.
E quando falamos de foco, estamos falando de “não”. Desde um relacionamento que já não existe mais condições de se reerguer, deixar o emprego atual e buscar um novo e desafiador ou mesmo na escolha de uma nova aquisição, seja lá o que for.
Se os pais falassem mais “não” para seus filhos, não criariam pessoas egocêntricas que vão crescendo e inflando nossa já estafada sociedade individualista. Acredito que a proporção de “não” deve ser maior do que as de “sim” para que a pessoa aprenda a dar valor em cada pequena coisa da vida. Afinal de contas, não existe corte sem dor. E fala a verdade, tudo que vem fácil, vai fácil. Concorda?
Se você, assim como eu, não é um especialista em “não”, comece dizendo não ao cigarro e sim a seus pulmões, não ao excesso de bebida alcoólica (tente parar) e sim ao seu fígado, não ao “ficar” e sim ao namorar, não a excessiva carga de trabalho e sim dedicar tempo para família e amigos, não ao sedentarismo e sim ao esporte, não para a zona de conforto e sim para a zona de coragem.
Entenda que cada “não” que você recebe é um “sim” para novas oportunidades em sua vida. Basta ficar ligado nos sinais que a vida lhe dá. E você, já aprendeu a dizer “não”? Sei que não é nada fácil dizer “não”, mas quando você corta o excesso, você tem mais tempo para o que realmente importa. Você acaba dizendo “sim” para você.
Rio e Rua
Na quarta-feira, dia 29 de dezembro de 2010, resolvi dar uma volta pelo centro comercial de Belém, os mais antigos ainda falam: “Vou lá em baixo fazer umas compras”. Bem verdade que o comércio esta uma bagunça, como em qualquer capital brasileira. Os playboys e as patys preferem os shopping centers pela “segurança” oferecida por esses complexos. Mas se você for visitar uma cidade, não deixe de conhecer o seu centro comercial. É lá que está a verdadeira cultura de uma cidade.
Resolvi (re)visitar o Forte do Castelo, engraçado que já havia passado algumas vezes por lá, mas não conhecia o museu que o Forte guarda. Parte de nossa história está lá para quem quiser ver e compreender. Nossa mistura indígena, negra e européia reflete direto no povo que vai e vem pelas ruas e rios de Belém. Saindo do museu fui para o pátio do Forte, de onde se pode ver a Feira do Açaí, Baía do Guajará, Mercado de Ferro, Estação das Docas entre outros pontos.
Sentei exatamente de frente para o Mercado de Ferro e, entre o som dos “popopôs” indo e vindo, buzinas dos carros, vôos de urubus e garças, do céu azulzinho e do sol que raiava pra “dedéu”, comecei a observar o fluxo dos carros na Rua Castilho França e dos barcos na Baía do Guajará. Quando visitar o Forte do Castelo creio que também vai obter o mesmo pensamento que descrevo a seguir.
Ao trafegar por uma rua você segue um padrão com marcações em faixas, sinalizações e direções a seguir para organizar o trânsito. Essa ordem deve existir, senão vira bagunça mesmo, mas note que quando as coisas ficam muito bem definidas cria-se a rotina que vai matando as pessoas a cada dia com suas regras e crenças inquestionáveis. As coisas acontecem devagar quase parando.
Em contrapartida, a rota que cada barco pega para seu destino não segue uma linha reta, muito menos demasiadas sinalizações. O piloto sabe que tem que chegar a seu destino, mas nem sempre deve seguir o mesmo caminho. Com várias possibilidades a sua frente ele se dá o luxo de se sentir livre para ousar e conquistar mares nunca dantes navegados. Não foi assim que fomos e somos colonizados?
Desde criança que viajo de barco para o baixo Tocantins em férias e passeios com família e amigos e nunca vi um comandante estressado, ao contrário de muitos motoristas que enfrentam a rotina desgastante do trânsito das capitais brasileiras. É claro que em nossa correria cotidiana não dá para trocar o carro pelo barco, a rua pelo rio. Mas quando visitar qualquer cidade banhada por rios, não deixe de passear por suas ruas e também por seus rios.
Quando você tiver a sensação de liberdade, aproveite para explorar sua criatividade.







